Impressionante como tudo que saia do rotineiro tem a capacidade de ser, a primeira vista, reprovado. Não é novidade o apedrejamento da greve, manifestação mais legítima de descontentamento da classe trabalhadora, que se nega a trabalhar nas condições apresentadas. Sejam essas condições salariais, morais, ou qualquer outra característica do ambiente e condições de trabalho.
“O trabalho enobrece o homem”. Essa frase era verdadeira na época em que o autor dela vivia. Provavelmente. Não posso afirmar porque nunca vivi uma época em que isso fosse plenamente verdade. Como nasci em 1984, ainda não vi nenhuma situação em que o puro interesse do acúmulo de lucro não estivesse acima de princípios como a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Isso pra ficar só na tríade revolucionária francesa!
Hoje, o trabalho emburrece o homem. O trabalho e a vida inteira da pessoa que é preparada desde o nascimento para ser parafuso de engrenagem. O cidadão, enquanto ainda é visto como “estudante”, cresce apoiado em “benefícios”. Tem desconto pra entrar em teatro, mas usa mais a carteirinha pra pagar meia entrada na Oktober ou no cinema, pra ver aquele enlatado americano. Pega ônibus com desconto pra ir beber do outro lado da cidade, não exatamente para ir para a escola, que fica ao lado da sua casa.
O tempo passa, e os direitos mudam. Quando arruma um emprego, ele é “premiado” com dinheiro pelo patrão. O patrão, gente boa que só ele, insiste em pagar em dia, mês após mês, para que ele possa vir trabalhar todos os dias, cumprindo jornadas ou horários combinados entre os dois. Sempre discutidos igualitariamente, como em qualquer contrato e transação comercial. Ou não?
No final do ano, ele ainda ganha uma chance de pagar as dívidas que fez por causa do seu salário de merda rebaixado que “ganha” o ano inteiro. O décimo-terceiro é mais um presente do patrão. Ou seria do Governo? Poucos lembram que, na década de 1920, o “Paizão dos Trabalhadores” e gente-boa pra caralho Getúlio Vargas aprovou também o FGTS. Se isso acabou com a estabilidade automática para todos os trabalhadores após 10 anos na mesma empresa é bobagem! O importante é que temos uma grana pra receber toda vez que a cidade estiver destruída por uma enchente!
Aliás, estabilidade é coisa de sindicalista vermelho comunista que não gosta de trabalhar! Bom mesmo é acordar cedinho todo dia, tomar uma média com meio pãozinho amanhecido na calada da madrugada pra cumprir mais uma jornada de trabalho. No final do mês, ops, uma semana depois do final do mês, receber o salário que tanto vale a pena!
No final da vida, aquele cidadão, que eu citei lááá em cima, ainda tem mais direitos: pode andar de graça no buzão! Agora, vale a pena! Afinal, ele finalmente tem o direito de usar o transporte porco público pelo qual pagou durante toda a sua vida. Antes, ele pagava mais do que o valor da sua passagem. Agora, finalmente, ele pode se dar ao luxo de ser como naqueles países de vagabundos comunistas vermelhos e andar de graça, só se aproveitando do suor dos outros.
O título desse post é uma referência direta à greve dos motoristas e cobradores do transporte coletivo de Blumenau. Depois de sinalizarem que as greves começariam na segunda-feira, um final de semana chuvoso pra caralho acabou com a cidade e com os planos desses trabalhadores. Nada mais justo que suspender a Campanha Salarial e aguardar as coisas se acalmarem.
Pelo jeito, as coisas já se acalmaram: a Prefeitura assinou embaixo do aumento de 12,2% na tarifa, anunciado na semana passada e que passará a valer no próximo dia 17. Qual será a desculpa? A crise mundial? Ou a alta da inflação, que nos últimos 12 meses foi de 5,95%? Estranho, heim…
Nos próximos dias, deverei me aproximar mais da movimentação. Prometo que contarei mais detalhes dos bastidores, se for o caso.