Saiu de casa apressado, a passos largos. Faltava mais ou menos meia hora para o assalto. O fone de ouvido tocava um som forte, pesado, o som era do Planet Hemp. Entre dig-dig-digs e porcos fardados, seus passos ganhavam a avenida principal.
O frio no início da noite denunciava que o verão já sucumbira, e o outono dava as boas-vindas ao inverno. O vento gelado colaborava para que a caminhada fosse cada vez mais rápida. No ritmo das batidas da música, faltavam pouco mais de vinte minutos para o assalto…
Dobrou a esquina, contornando um semáforo onde os veículos se alinhavam. Em cada um, histórias diferentes, destinos diferentes. Fitou os rostos que aguardavam o verde surgir no horizonte. Faltavam uns dez minutos para o assalto, e passou por sua cabeça como o semáforo deixava tantas histórias a tão pouca distância…
De volta à rua menor, andava pela rua paralela à da sua casa. As árvores haviam crescido mais do que o planejado, e já formavam um grande túnel em seu redor. Fechavam a visão da rua e do céu nublado. Eram só mais cinco minutos para o assalto…
Entrou no túnel das árvores, e ficou na parte mais escura da rua. Empolgado pelas batidas da música, fechou os olhos e balançou a cabeça para frente. Em seguida, para trás. E para frente, de novo. Quando faria o quarto movimento, deslocando a cabeça para trás, foi surpreendido por uma pancada na nuca.
Foi assaltado a menos de 500m da sua casa. E a última coisa que lembra ter ouvido no seu mp3 foi um “Legalize já, legalize já…”…
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Cuidado, você está entrando na…
Parte chata do Post:
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A Novela da Vida Real
No melhor sentido “Moral da História”, resolvi explanar sobre a crônica acima. Foda-se se você achar que ela é mais um conto do que uma crônica.
Não, não considere essa crônica uma crítica ao uso de entorpecentes. Nem tampouco mais um lamento “cansado” sobre a violência que invade os bairros burgueses por todo o país (mundo?). O ponto que me fez escrever esse texto foi justamente a complexidade maior que vejo no contexto: quem são os vilões? Quem são os mocinhos? Quem são as vítimas?
Somos bombardeados por informação todos os dias, durante o dia todo. Arrisco dizer que menos de 1% dessa informação é aproveitável. Isso considerando que saber quem tá comendo quem entre o elenco da novela das 8 pode ser aproveitável para alguém. Pra mim, definitivamente não é. Mas, considerando que isso pode ser aproveitável para alguém… não dá pra fugir muito dessa lógica. Até porque tenho certeza que mais gente se importa com isso do que com os capangas do Gilmar Mendes…
E esse povo Zé Novela é tão alienado que sabe certinho quem é bandido e quem é mocinho na novela. Aliás, em todas as novelas. Das seis, das sete, das oito (que chega a começar às 21h3o!), isso quando não aproveita os telejornais pra assistir também às novelas das outras emissoras! Ou o “Vale a pena ver de novo” e Malhação! E essa neura faz com que o cidadão se acostume com a dicotomia bandido/mocinho.
A vida real não é feita de bandidos ou mocinhos. Até porque na literatura, no cinema ou até na novela, o mocinho que salva a mocinha do dragão não é o mesmo que a trai (não confundir com “atrai”) duas vezes por semana. Esse suposto personagem seria vilão ou mocinho? Seria inocente ou culpado? Julguem, senhores telespectadores!
Vivemos numa sociedade em que os rótulos são mais importantes que as pessoas. Fulano é um pai exemplar, então ele é catalogado como mocinho. Mas ele joga chepa de cigarro pela janela! Então é vilão. Mas ele doou 10 reais aos desabrigados da enchente! Então é mocinho. Ah, lembrei: ele come a secretária boazuda no horário de almoço. Vilão! Mas, sempre dá a vez às velhinhas na fila do mercado. Mocinho, é claro! Não fosse o fato dele ter dado a vez só pra dar aquela olhada na bunda da neta da velhinha. Ish, vilão. Ou mocinho, se ele tiver a intenção de casar com a mocinha? Caralho! Agora confundiu tudo. Ele tem boas intenções, mas é casado. Que vilão!
A verdade é que não existe rótulo perfeito. E caímos, diariamente, nessa armadilha. Separar o joio do trigo é fácil. Mas pessoas não são joio nem trigo. Ninguém é eternamente joio, nem trigo. Até o pior bandido do mundo pode amar, e ser um bom filho ou marido. Para sua mãe, para sua esposa, ele será mocinho. Até o mais puro fiel da praça pode ser considerado vilão se pagar o dízimo só por obrigação, e não por puro préstimo divino, como deveria fazer. E agora? Quem atira a primeira pedra?
A graça da vida está justamente no equilíbrio. No eterno desafio de equilibrar estas facetas. Não tente se convencer de que todos que te cercam gostam de você. Alguns te odeiam. Mas também não são todos, porra! Muita gente gosta de ti. Quantos estão em cada time? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. O que acontece é que, a cada instante, um mocinho vira vilão. Um bandido vira vítima…