Caso entre primos

11 11UTC Dezembro 11UTC 2008

Ernesto acordou mais cedo que o normal. Sonhara com a prima, de novo. Sonhos que não poderiam ser contados aos familiares. Sonhos pecaminosos.

Ele já se sentia grandinho que chega pra lidar com esse tipo de sonho, mas a presença constante da prima, e a delicadeza com que ela lidava com ele impedia que ele tomasse coragem de dar um passo a mais.

A barreira entre o tesão e a vergonha era enorme. Intransponível. O sol já estava mais alto, os pássaros cantavam alegremente, quando a prima entrou no quarto dele. Radiante, com palavras positivas, como sempre fazia.

Deu-lhe “bom-dia”, serviu-lhe o café da manhã na cama, e aguardou até que ele terminasse para recolher a louça. Quando ela foi embora, ele fitou a bunda dela. Deu um sorrisinho maroto, algo entre envergonhado e sarcástico. Estava criando coragem.

A prima voltou, meia hora depois. Sentou na poltrona, ligou a televisão. Soltou o elástico que segurava seus cabelos claros. De costas para Ernesto, com a cadeira um pouco à frente e à direita dele, a visão era animadora: os cabelos caíam sobre os ombros e deixavam ainda mais sensual a cena, com um adicional de mistério que era praticamente irresistível.

A prima lhe servia o almoço quando, num momento rápido de coragem, Ernesto pegou-lhe o seio esquerdo. Ela levou um susto, deixou cair a bandeja com o prato. Olhou, ainda sem entender nada, mas sem reprovar. Esboçou um sorrisinho sacana…

- Ernesto, seu filho da puta! Eu sempre soube que tu queria me comer!

- Sempre! Demorei muito, né?

- Demorou, véio! Demorou demais… quem dera não estivéssemos aqui, nesse asilo, e tudo poderia até ser mais bonito…

Ernesto morreu mais ou menos um ano depois, aos 92. Sua prima, aos 87, ainda mora no mesmo quarto que o primo morava na época. Ainda tem sonhos picantes com aquele dia. E ainda pensa em, um dia, se entregar ao primo mais novo. Mas, ele não mora no asilo ainda…


Mais uma pasta de dente…

12 12UTC Novembro 12UTC 2008

Na verdade, menos uma. Everaldo levantou tarde, de novo. Tomou um banho pra tirar o gosto amargo de ressaca do corpo. Não adiantou. Ainda pelado e molhando o balheiro todo, pegou a escova de dentes pra tentar tirar o gosto de guarda-chuvas da boca.

- Porra, já tá no fim de novo… Será que meu cachorro anda comendo minha pasta de dentes enquanto eu não tô em casa?

Mais um tubo de pasta de dentes chegando ao fim. Mais uma vez, pego de surpresa. Não tinha outro no estoque. Mesmo se tivesse, o susto seria o mesmo. “Mas parece que foi ainda esses dias…”. Não era esbanjador, não botava muita pasta de cada vez. Aquele meio centímetro, só pra fazer espuminha mesmo… e olha que mal e mal escovava os dentes duas vezes por dia! Alguma coisa muito estranha acontecia.

Não era o cachorro que comia a pasta de dentes. E sim era o tempo e a rotina quem consumiam a vida de Everaldo. Todo dia que ele acordava, cedo ou tarde, apertava o tubo de pasta de dentes com a mesma má vontade, com os mesmos olhos inchados e com a mesma desatenção. Só percebia algo diferente quando o tubo já tava BEM no fim…

Ele não parou pra pensar nisso porque estava muito ocupado arrumando suas coisas para sair para mais um dia de trabalho. Mas se tivesse parado para pensar, perceberia que (muitas) outras coisas de sua vida tinham o mesmo fim daquele tubo de pasta de dentes: iam se apertando, se acabando, e ele só percebia quando já não serviam pra mais nada.

A relação com os pais, que moravam em outra cidade, a relação com os amigos que moravam longe, com a namorada que já não frequentava tanto assim a sua casa. A relação com o trabalho que ele jurava mudar logo, porque não aguentava mais. E já faziam quatro anos. Mudança? Nenhuma. Mas, todos os dias, ele jurava de novo, pra si mesmo, que não suportaria aquela condição por mais tempo.

Não seria mais apertado como um tubo de pasta de dentes. Não seria mais torturado até o seu fim, quando se tornaria apenas lixo, sem importância alguma.

Não deu tempo. Naquele dia, pensando se o cachorro comera sua pasta de dentes, Everaldo não viu um carro que fazia a curva pela esquina de onde trabalhava. Morreu esmagado. Mas com alguma pasta dentro do seu tubo.

O cachorro, continua lá, esperando ele voltar. Não percebeu nada ainda, porque o dono só voltaria hoje no final do dia. E continua sedento por atenção do dono, que sempre está ocupado com coisas “mais importantes”. E nunca comeu pasta de dentes…